César Filipe Gomes, nascido na freguesia de Santa Luzia (Funchal) a 26 de Maio de 1875, proprietário de uma ourivesaria situada na antiga Rua do Aljube, destacou-se como coleccionador de antiguidades no seio de uma comunidade, à época, não muito votada a esta actividade.
Este madeirense, que adquiriu as suas peças em leilões que tinham lugar na Ilha da Madeira, e nomeadamente ao antiquário João Wetzler, conseguiu reunir um precioso acervo ao longo dos anos que englobou Mobiliário, Cerâmica, Joalharia, Miniaturas, Marfins, Escultura, Pintura, etc.
A sua colecção, criada no decorrer do normal exercício das suas actividades comerciais relacionadas com a ourivesaria, reflecte, acima de tudo, o mercado circunstancial de oferta sobre uma procura intencional e selectiva.
Apesar de escassa, a informação relativa a César Gomes é particularmente interessante, sendo possível analisar a sua colecção e construir paralelos com a própria história do coleccionismo na sociedade madeirense.
Adquirindo as suas peças numa área geográfica que se restringia à Ilha, a génese da colecção de César Gomes está relacionada com a aquisição local, condicionada e/ou potenciada por diversos condicionalismos sociais e políticos, que remontam ao século XIX e determinam o coleccionismo na primeira metade do século XX.
Disso é exemplo a entrada na colecção do núcleo de Figuras de Presépio que, de acordo com documentação, o coleccionador adquire maioritariamente a herdeiros dos condes de Carvalhal, família que mantinha relações estreitas com o círculo artístico lisboeta e que acompanhava as tendências artísticas da capital, nomeadamente na área do coleccionismo.
A procura e aquisição de núcleos já constituídos, parece também ter sido o mote que levou o coleccionador a, possivelmente, ter adquirido o núcleo de Glíptica no decorrer do leilão dos bens pertencentes ao Eng.º George Walter Grabham.
Mas César Gomes beneficiou também de um outro factor histórico, decorrente do século XIX, que potenciou por todo o país o surgimento de Museus e grandes colecções privadas – a extinção das Ordens Religiosas e dos seus conventos (1834), e mais tarde a Lei de Separação da Igreja do Estado (1911), que conjuntamente permitiram aos particulares e ao Estado entrar na posse de um elevado número de bens artísticos.
Alguns destes bens foram vendidos em hastas públicas, como o comprova o artigo de João Maria Henriques, em que o autor salienta o facto de um único “adjudicatário” ter adquirido cerca de 20 armários de «caixa de açúcar» na venda dos bens do Convento de Santa Clara, no Funchal, levantando-nos a dúvida se terá sido César Gomes o “feliz” comprador de tão grande lote, uma vez que é numerosa a colecção deste Mobiliário que o ourives doa ao Museu.
Fruto de estas e muitas outras aquisições, César Filipe Gomes aumentou o seu espólio. Quando atingiu uma idade avançada, propôs à Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, a cedência de toda a sua colecção, para a criação de um museu de artes decorativas, mas pondo como condição que o mesmo fosse instalado na Quinta das Cruzes, então pertença de particulares. A escritura de doação, assinada entre a Junta Geral e coleccionador a 19 de Dezembro de 1946, determinava que este último doava “ (...) toda a sua colecção de objectos de arte e antiguidades (mobiliário, cerâmica, ourivesaria, joalharia, miniaturas, gravuras, pintura, escultura, tapetes, colchas, etc.) (...), que esta doação é feita para o fim expresso de a Junta Geral Donatária fazer instalar no prédio desta cidade denominado e conhecido por Quinta das Cruzes um museu de arte com carácter regional que terá também como objecto toda a referida colecção doada e com a denominação de ‘Casa-Museu de César Gomes’”.
No cumprimento da referida Escritura, a Junta Geral inicia um longo e complexo processo de negociação com os proprietários da Quinta das Cruzes, que culminaria apenas a 21 de Abril de 1948, data da quitação que determinou o valor da indemnização a pagar.
É já com base na doação de César Filipe Gomes, que a 29 de Dezembro de 1949, é inaugurada na Quinta das Cruzes a sua primeira exposição. No entanto, apenas a 28 de Maio de 1953, é oficialmente aberta ao público a Casa-Museu “César Gomes”.
Foram as diversas colecções e as determinações de formação deste espólio, que predispuseram um tipo específico de Museu que depois sujeitou não só as aquisições seguintes como o próprio conceito vivencial do mesmo.