Localizada quase no coração da cidade do Funchal e ocupando cerca de 1 hectare, a Quinta das Cruzes – Casa de moradia, Capela e Parque Ajardinado – representa uma unidade urbana qualificada, cuja imagem corresponde a uma forma peculiar de estar na Ilha da Madeira que, ainda hoje, excepcionalmente, sobrevive.
As memórias desta Quinta estão ligadas à vida e à história da cidade do Funchal.
As primeiras referências documentais relativas ao conjunto habitacional das Cruzes remontam ao século XVI. No entanto, a primitiva edificação remonta ao final do século XV/início do século XVI, identificada como as Casas de João Gonçalves Zarco e seus descendentes, e última moradia do 1.º capitão donatário do Funchal.
As primeiras informações relativas à Quinta constam do codicilo do testamento do 2º capitão donatário, João Gonçalves da Câmara, datado de 1501, onde também se determina que “Pedro Gonçalves da Câmara haja as casas em que eu moro com todo o seu assentamento”. Desta primitiva edificação, restavam até há pouco tempo duas portas, de influência Manuelina, em cantaria cinzenta da região (traquibasalto) que davam acesso ao que outrora foram as lojas da Casa, e que, devido a uma intervenção que decorreu no início dos anos 50 do século XX, foram adaptadas e duplicadas em janelas.
A Casa permaneceu na posse da família Câmara ao longo de todo o século XVI, como o comprova, em 1575, a venda da habitação por Pedro Gonçalves da Câmara a Francisco Gonçalves da Câmara.
Mas no 1.º quartel do século XVII, por morte do então proprietário João Gonçalves, que não deixou descendência, a Quinta das Cruzes é herdada por seu irmão António do Carvalhal Esmeraldo, que dela toma posse em 1624, ao que se seguiu, em 1678, a entrada da Quinta para o morgadio dos Lomelino. A presença desta família é assinalada, nomeadamente, através do brasão de armas  que foi colocado no tecto da entrada do alpendre.

Brasão de armas da família Lomelino, situado no tecto da sala de entrada    
Brasão de armas da
família Lomelino.


Em finais do século XVII, a Quinta das Cruzes sofreu as suas primeiras grandes transformações. Data desta época a construção da arcaria em pedra vermelha da Região (tufo de lapill e tufo brecha) adossada à fachada, bem como a construção (datada de 1692 segundo a inscrição do pórtico) e posterior instituição (1695) da Capela de Nossa Senhora da Piedade, erigida por Francisco Esmeraldo Correia Henriques e localizada no extremo Sul do espaço ajardinado. É também a este proprietário que se atribui a encomenda do retábulo pintado alusivo À Lamentação sobre Cristo Morto (c. 1700), da autoria de Bento Coelho da Silveira (1620-1708), que se encontra na referida capela.
No século XVIII são feitas de novo obras, facto a que, provavelmente, não é alheio quer o casamento de António Correia Henriques Lomelino e D. Guiomar Jacinta de Moura Acciaiuoli, que passaram a viver nas Cruzes em finais de 1718; quer o forte terramoto que atingiu a Ilha da Madeira em 1748 e que provocou sérios danos à edificação.
Data de meados deste século o corpo predominante do edifício principal, característico das construções do século XVIII insular.
É na centúria de Novecentos que se desenrola a contenda, que teve início em 1836, protagonizada pelo então proprietário da Quinta, Nuno de Freitas Lomelino, último morgado das Cruzes e padroeiro do Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Santa Cruz, e que requer os bens do dito Convento que havia perdido com a Extinção das Ordens Religiosas em 1834. Apenas em 1852 a situação ficaria resolvida, passando as ruínas do Convento para a posse do Morgado, que transferiu parte do espólio para a Quinta das Cruzes.
No entanto, pouco tempo depois, em 1863, a Quinta é vendida a Tristão Teixeira de Bettencourt e Câmara, Barão do Jardim do Mar.
É consentânea com este período a edificação do espaço alpendrado, que se sobrepõe à arcaria da fachada principal, as duas casinhas de prazer e toda uma nova concepção do espaço ajardinado (tal como o conhecemos hoje) de acordo com os ideais românticos em voga.
     Coreto da banda municipal do Funchal na Quinta das Cruzes

        Coreto da Banda Municipal 


Na transição do século XIX para o século XX, várias foram as actividades e as finalidades exercidas na Quinta das Cruzes. O edifício serviu de sede do Club Madeira, de residência e consultório médico, mais tarde foi transformado em Hotel, e funcionou ainda como sede da Banda Municipal do Funchal, cinema, escola, porto de abrigo aos refugiados gilbratinos e terminou como fábrica de bordados da firma Fortunato Eleutério Miguéis, última proprietária privada deste espaço.
Por fim, a Quinta das Cruzes foi adquirida em 1948, para futura criação de um Museu de Artes Decorativas, conjugando as iniciativas do seu primeiro doador – César Filipe Gomes e dos organismos oficiais, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal.
A dignidade arquitectónica e funcionalidade dos seus espaços marcaram decisivamente e facilitaram o desenvolvimento da sua última definição vocacional como Museu.



A Quinta das Cruzes foi sofrendo sucessivas alterações ao longo dos seus mais de 500 anos de existência, que a transformaram numa das mais prestigiadas “Quintas Madeirenses”. Estes conjuntos habitacionais, caracterizados pela sua estrutura composta de moradia, capela, casinha de prazer e parque ajardinado, bem como a sua localização enquadrada no anfiteatro do Funchal, fizeram destas construções um dos aspectos característicos da paisagem madeirense, reflexo de toda uma complexa rede de influências sociais e económicas que predominaram na Madeira.
Presentemente a moradia principal divide-se em três pisos: rés-do-chão (primitivas adegas e loja), primeiro piso (andar nobre) e Torre (considerada como um terceiro piso).
No seu interior, a Casa apresenta-se como um espaço de moradia, exemplo das construções senhoriais insulares, características do século XVIII/XIX.

A Quinta das Cruzes foi classificada como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto 36.383 de 28 /06 /1947.
O edifício encontra-se inventariado na base de dados da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais com o n.º IPA PT062203080020 (www.monumentos.pt).