Países Baixos (?), século XVII
Pintura a óleo sobre tela
Aquisição, 2000
MQC 2255

Não se conhece ao certo o autor deste retrato mas, ao contrário do que acontece normalmente com a pintura em Portugal no século XVII, esta obra, realizada provavelmente nos Países Baixos, apresenta uma inscrição no canto superior esquerdo identificando o retratado: D. Francisco de Moura, 3° Marquês de Castelo Rodrigo (1621-1675). A acompanhar a inscrição surge, no canto oposto, um brasão com as respectivas armas.
Quem é este personagem quase desconhecido, de nome português, mas cuja memória, mau grado a vontade de se fazer perpetuar em majestosas obras, se perdeu? D. Francisco de Moura Corte Real era nada mais, nada menos do que o neto de D. Cristóvão de Moura, o todo poderoso ministro de Filipe II (I de Portugal) que muito facilitou a entrada do Duque de Alba em terras lusas. Era filho de D. Manuel de Moura, 2° marquês de Castelo Rodrigo que, sendo embaixador extraordinário de Espanha em Roma, descobriu o famoso arquitecto barroco romano Borromini, a quem encomendou a decoração interior da sua capela funerária na cripta do Mosteiro de São Bento da Saúde, em Lisboa. Tal como demonstrou Paulo Varela Gomes em magnífica tese de doutoramento defendida recentemente, foi o 2° Marquês de Castelo Rodrigo o mecenas que sustentou os primeiros anos de actividade de Francesco Borromini. Graças à sua intervenção, Espanha pagou a famosa igreja de San Carlino alle Quatro Fontane, em Roma, e nessa continuidade encomendaria a Borromini uma compilação a que deu o nome de «Opus Architectonicum». Tão grato terá o artista ficado ao Marquês, que na dedicatória diz que ele o amava mais como um filho do que como um criado.
Voltemos à figura do verdadeiro filho deste mecenas. No retrato que agora divulgamos D. Francisco aparece representado já como Marquês, usando o título herdado do pai. Já antes da morte do seu progenitor D. Francisco se destacava na Corte espanhola e, em 1647, sendo gentil homem da câmara de Filipe IV, comprou um terreno nos arredores de Madrid onde haveria de construir a mais esplendorosa casa de campo daqueles tempos: La Florida. Por essa altura era incluído numa compilação de retratos de homens ilustres retratados em gravuras abertas, por Antony van der Does, em Antuérpia, na casa de Petro de Iode, figurando ao lado de seu pai, então Governador da Bélgica. Nessa época, como se depreende da legenda da gravura, desenhado por Gaspar Von Holander D. Francisco era Conde de Lumiares e camareiro real. Conhece-se uma outra gravura, mais próxima deste retrato, tirada com base neste exemplar, onde D. Francisco acumula já todos os títulos de que era herdeiro: Marquês de Castelo Rodrigo, Conde de Lumiares, Senhor da Terceira e do Faial, Comendador da Ordem de Cristo e Capitão General da Bélgica. São estas insígnias que se acumulam em símbolo no retrato pintado: o hábito de Cristo ao peito, a faixa vermelha cruzada complementada pelo bastão de comando que representa o seu governo nas terras da Bélgica, e o brasão dos Corte Real que lhe concede a nobreza dos títulos portugueses.
Nenhuma destas glórias terrenas foi suficiente para fazer perdurar a memória deste grande homem. O seu belo Palácio da Florida foi arrasado por completo, só sobrando hoje uma alusão toponímica que dá o nome de Príncipe Pio a uma estação de comboio, lá para os lados do rio Manzanares, perto do Palácio Real de Madrid. Este «Príncipe Pio», de Sabóia, foi o herdeiro do palácio, casado com a filha do marquês, ainda que contra a vontade de seu pai. A Quinta de Queluz na qual D. Manuel de Corte Real tanto empenho teve na decoração dos jardins, encomendando obras de arte em Itália passou após a Restauração de Portugal para a Casa do Infantado, convertendo-se em morada de Verão da família real portuguesa, e dela restam apenas vestígios raros da ocupação do século XVII. O Palácio dos Corte Real em Lisboa, tão majestoso que ameaçava em grandeza o vizinho Paço da Ribeira, desapareceu no Terramoto de 1755. As obras do mausoléu familiar nunca tiveram fim e encontram-se hoje sob a Assembleia da República, conservando-se apenas um belíssimo frontal de altar na capela do Museu Nacional de Arte Antiga, atribuível a Borromini. O Marquês morreu em 1675 convicto da sua sepultura em São Bento, como deixou claro no seu testamento, mas Portugal nunca receberia os seus restos mortais que repousam em terras espanholas. Em verdade, tal como o sítio da Florida parece nunca ter existido «como se tivesse sido produto de um sonho», a vida do 3° Marquês de Castelo Rodrigo só pode ser recordada por este retrato memorial.

Anísio Franco [“Retrato de um Sonhador”. In Arte Ibérica. N.º 33, Março 2000].