Portugal, 1º quartel do século XVI
Prata dourada, granadas, safiras, ametistas e ágata
Doação César Gomes, 1946
MQC 130

O Ósculo da Paz (osculatorim, instrumentum pacis) foi usado na liturgia cristã como símbolo de amor fraterno e reverência. É um símbolo de reconciliação e de alegria em Deus. Era apenas omitido na Quinta-feira Santa, assim como nas Missas de Réquiem.
Este Porta-paz pertenceu à Igreja de São Salvador de Santa Cruz e apresenta uma mudança significativa na estrutura composicional da ourivesaria de tradição manuelina. Presos à arquitectura do gótico final, ao estilo flamejante, os modelos da ourivesaria vão ganhar com o avançar do século XVI, uma raiz moderna, onde as fontes de inspiração se orientam para o renascimento italiano ou para as suas versões europeias.
É composto em forma de um portal, com pilastras, colunas lisas e capitéis estilizados, que se abrem num nicho com dossel concheado, onde se apresenta Cristo ressuscitado. A figura de Cristo traduz o novo apelo, à descrição formal humanizada, pelos rigores de uma modelação de proporções classizantes. O conjunto é rematado por uma grande oval, duas volutas e duas urnas. Apresenta a aplicação de nove cabochões, três granadas, três safiras, duas ametistas e uma ágata não talhada. Na face posterior, na zona superior, aparecem gravadas as armas dos Freitas, como também se podem ver na sepultura laminada de bronze, na Capela-mor da Igreja Matriz de Santa Cruz, de João de Freitas e Guiomar de Lordello. Apresenta uma inscrição que contorna na face posterior toda a zona central: IVRDAM DE FREITAS A DEV. Jordão de Freitas era filho de João de Freitas, fidalgo da casa do duque D. Diogo (irmão de D. Manuel I) e de D. Guiomar de Lordello.
Esta peça parece que se encontrava já em 1516 em Santa Cruz, como é também a opinião de António Aragão. No entanto, mais recentemente, Pedro Dias pôs a hipótese de ser datada da década de 40 do mesmo século.
Jordão de Freitas nasceu em Santa Cruz cerca de 1487, tendo servido na corte a partir de 1516, como escudeiro fidalgo da casa de D. Manuel I. Serviu como Capitão-Mor da cidade de Safim e Capitão-Mor das Armadas do Reino. No início da década de 20 havia sido feito feitor no Benim. Partiu para a Índia em 1528 com sua mulher D. Maria da Silva e família, na armada capitaneada por Nuno da Cunha. Entre 1530 e 1536 participou nas lutas contra os Rumes, realizando ainda várias viagens às Molucas, onde travou relações com Tabarija, Rei de Ternate. Acaba por se tornar em Senhor das ilhas de Amboino e Sirão, numa doação assinada em Goa em 1537, em que o governador Nuno da Cunha as cede em feudo hereditário. Regressado a Santa Cruz, Ilha da Madeira em 1539, volta a Lisboa em 1543, recebendo de D. João III a capitania de Maluco aonde chegará em 1544.
O Porta-paz da Matriz de Santa Cruz entrou para as colecções do Museu Quinta das Cruzes em 1946, por doação de César Gomes.
Esteve presente já em 1950 na Exposição de Arte Missionária realizada em Roma e Madrid e depois, em 1951 em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, assim como em Feitorias, L’art au Portugal au temps des Grandes Découvertes.
Na Ilha da Madeira chegaram até aos nossos dias para além do acima descrito, o Porta-paz da Sé do Funchal, oferecido por D. Manuel I, hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal, em prata dourada, assim como o Porta-paz da Igreja de Santa Maria Maior, em bronze dourado, também no Museu de Arte Sacra do Funchal, de inícios do século XVI e próximo ao Porta-paz atribuído a uma oficina espanhola no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra.

Francisco António Clode de Sousa