O ciclo evolutivo da cultura sacarina, nos diversos espaços do Atlântico, é pautado pelas variações entre a sua afirmação numa área e a decadência noutras. No contexto madeirense, o valor mais elevado desta produção foi atingido em 1510, entrando depois num movimento descendente. A partir do último quartel do século XVI, e face à concorrência do açúcar brasileiro, acentuou-se a quebra na produção.
Na sequência do aumento da produção e exportação de açúcar do Brasil, foram tomadas medidas proteccionistas a nível regional que, em 1603, proibiram a compra e venda do açúcar provindo do outro lado do Atlântico.
No entanto, e ainda no decorrer da primeira metade do século XVII, as medidas foram sendo aligeiradas, tendo atingido o açúcar brasileiro, em 1657, a proporção de 50% do total comercializado na Madeira.
No entanto, e ainda no decorrer da primeira metade do século XVII, as medidas foram sendo aligeiradas, tendo atingido o açúcar brasileiro, em 1657, a proporção de 50% do total comercializado na Madeira.

Armário caixa-de-açúcar, Portugal, século XVII         

Armário «caixa-de-açúcar»
Portugal, século XVII

Associado a este comércio, o fabrico de conservas tornou-se uma produção importante. Na Madeira, esta produção teve uma grande prosperidade na década de noventa do século XVII. No decurso do referido século, a casquinha concorreu com o vinho nas exportações, situando-se em 1698 em segundo lugar. No entanto, em 1799, o seu comércio estava quase extinto.
Paralelamente à produção de cana-de-açúcar, e fruto dos conhecimentos adquiridos pelos madeirenses na plantação da cana, surgiu a emigração para os locais onde se implementou esta produção, associada ao tráfico negreiro de mão-de-obra. Deste modo estabeleceu-se uma ligação entre os principais postos: Madeira, África e Brasil.
Mas associadas também à comercialização dos pães de açúcar, estão as caixas de madeira onde os mesmos eram acondicionados para transporte e exportação a partir do Brasil. Já Gaspar Frutuoso nas suas Saudades da Terra, refere as caixas onde eram transportados os pães de açúcar, identificando a madeira de til como o material utilizado para a produção dessas caixas.
O designado Mobiliário «caixa-de-açúcar» refere-se ao aproveitamento das madeiras que compunham essas caixas de transporte para fabrico de peças de cariz, maioritariamente utilitário. Contudo, e a julgar pela meia-cómoda com pintura acharoada pertencente à Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, fabricada em madeira de caixa de açúcar, estes contentores terão sido igualmente reutilizados no fabrico de outras tipologias, que não apenas o atrás enunciado.
Mais tarde, esta designação foi generalizada e associada a uma determinada tipologia de mobiliário que integrava armários (de um ou de dois corpos), destacando-se os armários copeiros filiados nos modelos holandeses divulgados em Portugal no final Seiscentos, bem como arcas.
Datadas maioritariamente do século XVII/XVIII, estas peças de mobiliário, que por vezes não acompanham a contemporaneidade estilística vivida à época, implicaram também uma maior manutenção das suas formas originais e o prolongamento do estilo, o que dificulta a sua datação.
No Museu Quinta das Cruzes encontramos, por exemplo, o aproveitamento desta madeira numa outra tipologia de mobiliário, uma cantoneira datada do século XIX, o que revela uma aplicação mais tardia da terminologia «caixa-de-açúcar».
Encontram-se igualmente referências ao Mobiliário «caixa-de-açúcar», nos Açores que, de acordo com Francisco Ernesto de Oliveira Martins, se situa no período entre 1642-1700, e também em Lisboa onde em 1686, os marceneiros da Rua das Arcas solicitam autorização para construírem em madeiras de fora, nomeadamente as das caixas em que vem os assucares do Brasil.

Presentemente o Museu Quinta das Cruzes possui no seu espólio um total de 15 armários e 2 arcas de Mobiliário caixa-de-açúcar