A palavra Glíptica deriva do verbo grego gliptw, que significava a arte de gravar pedras duras por incisão (os entalhes) e que, mais tarde, designaria também o trabalho de desbaste, em camadas, das pedras polícromas (como a ágata, o ónix e o sardónix) de modo a fazer sobressair as figuras talhadas em relevo (os camafeus). Contudo, há que ter sempre em conta que, na terminologia arqueológica, quando empregamos a palavra Glíptica estamos a referir-nos ao estudo de gemas gravadas (pedras preciosas e semi-preciosas).

Esta colecção, formada por um total de 112 peças, é um exemplo das muitas colecções que ainda hoje se fazem, guiadas por um critério quase sempre estético e que não reflectem a variedade e usos que outrora tiveram estas pequenas obras de arte. Recordemos que as pedras gravadas nasceram com a função primordial de selo, como necessidade de autenticar a propriedade e como marca ou sinal de algo muito apreciado e respeitado, inclusive, de carácter pessoal. Mas breve irão adquirir novas funcionalidades, segundo as culturas e as sociedades.
É com os Romanos que elas assumem novos valores, todos eles patentes na sua produção glíptica: o papel de selo, não só para cartas e documentos (atestado por numerosas fontes clássicas) mas também para selar adegas, despensas, os próprios vinhos, etc.. Como objectos de adorno, colocavam-se em vestidos, calçado e, inclusive, usavam-se como adereços de animais. Depressa, porém, adquiriram um valor apotropaico e profiláctico, pelas gravuras que apresentavam, e através das quais se assegurava a saúde e a prosperidade e se protegia contra todo o tipo de males (mau olhado, doença, etc.). É também com os Romanos que nasce o gosto de coleccioná-las e dedicá-las, como oferenda, às divindades. Por último, era já através destes pequenos objectos que se realizava a propaganda política dos símbolos do poder.
Nesta colecção, doada por César Filipe Gomes ao Museu Quinta das Cruzes, consideramos dois grandes grupos, ordenados cronologicamente: um primeiro grupo, a que chamámos antigas, composto por 42 peças, entre as quais há apenas um camafeu em pasta vítrea e 41 entalhes, em pedras semi-preciosas (destacando-se, com diferença, os de cornalina) e em pasta vítrea; um segundo grupo, a que chamámos de uma maneira ampla, modernas, entre as quais se inverte esta proporção já que 43 são camafeus, 25 são entalhes e 9 são peças singulares (pelo seu tamanho e função). Quanto ao material, o mais abundante entre elas é a concha, nos seus diferentes tipos.
No primeiro grupo, a cronologia vai desde a mais recuada, do século III a.C., às do século IV d.C. À excepção da primeira, todas pertencem ao período romano e representam uma amostragem da variedade de temas que então se gravavam.
No segundo grupo, o grosso da colecção é constituído por peças do século XVIII, e nele poderemos salientar os camafeus emoldurados por orlas em ouro e prata e metal dourado.

O núcleo pertencente ao Museu Quinta das Cruzes foi alvo de estudo e classificação pela Professora Doutora Raquel Casal Garcia (Universidade de Santiago de Compostela), em colaboração com a Dr.ª Graça Cravinho.

Camafeu, século XVIII, sardónix