D. Guiomar Madalena de Sá Vasconcelos Bettencourt Machado de Vilhena (1705-1789) foi uma grande proprietária da Madeira no último quartel do século XVIII.
Filha de Francisco Luís de Vasconcelos e Mariana Inês de Vilhena, D. Guiomar por morte prematura do seu irmão João José Vasconcelos Bettencourt, em 1766 (sem descendência), torna-se administradora de inúmeros morgadios aos sessenta e um anos de idade, chegando a administrar 48 capelas, entre inúmeras propriedades rurais e urbanas. Acrescente-se ainda que assumiu, por morte do irmão, a direcção da Confraria de S. José da Sé, dos carpinteiros e pedreiros do Funchal, como juiz, assinando pessoalmente os seus registos.
Descendente de cavaleiros da Ordem de Cristo, distinguiu-se, sobretudo, pela sua acção determinada no campo empresarial: foi negociante de vinhos, proprietária de armazéns e de navios mercantes que estabeleciam comércio com portos da Europa, da Ásia e da América, num contexto dominado, quase exclusivamente, pela esfera masculina.
D. Guiomar vive sob os auspícios da governação de D. João V (1706-1750) e de seu filho D. José I (1750-1777). É no reinado do primeiro - a faustosa corte joanina -, onde impera a ostentação, o cerimonial e a pompa, financiados pelas remessas de ouro e diamantes vindos do Brasil, que a soberania real e a ostentação do estatuto social tomarão formas bem visíveis.
É certo, que a corte da Metrópole se distancia do restante panorama nacional, no entanto, a nobreza de província e a própria burguesia em ascensão irão adoptar comportamentos semelhantes. Este fenómeno encontrar-se-á presente, também, no contexto social da Ilha da Madeira onde D. Guiomar ocupou um lugar distinto, quer pelas suas origens nobres, quer também pela sua prosperidade comercial.
D. Guiomar de Sá Vilhena faleceu em 1789, aos oitenta e quatro anos de idade na Quinta das Angústias, actual Quinta Vigia.
No entanto, transformações conjunturais, aliadas a evoluções técnicas, que marcam a transição do século XVIII para o século XIX, irão conduzir a profundas mudanças no panorama económico nacional e europeu, que os herdeiros de D. Guiomar não souberam acompanhar e que culminou com a falência comercial da empresa e venda de algumas das suas posses.
A atestá-lo, e enquadrado na análise do núcleo que agora apresentamos, regista-se o inventário com a listagem de jóias (um total de 310 peças) e diversas alfaias domésticas que acompanhou um depósito enviado à Fazenda Real, como penhor de uma dívida da antiga firma de D. Guiomar ao Estado.
Em Julho de 1801 parte das jóias encontravam-se na Tesouraria Mor do Erário Régio em Lisboa, outra parte permanecia no cofre da Fazenda Real da Ilha da Madeira (tendo mais tarde o Príncipe Regente ordenado que seguissem para o Reino), e uma terceira parte, teria sido vendida por arrematação, no Funchal, a diferentes compradores.
No que concerne ao lote que permaneceu na Madeira, colocam-se diversas hipóteses: podem ter regressado às mãos dos seus sucessores da Casa Carvalhal por via de arrematação (como aconteceu com os terrenos do Palheiro Ferreiro), ou mesmo não terem chegado as jóias a ser vendidas na sua totalidade permanecendo parte na posse da família; e podem ter sido adquiridas por outros compradores em leilão. Certo é, que estas peças apenas representavam uma parte do que teria sido o conjunto de jóias pertencentes a Dona Guiomar.
Na descrição que acompanha o levantamento das jóias desta proprietária, deparamos com: anéis (um impressionante total de 67, dentre os quais 39 com esmeraldas), brincos, alfinetes, relógios, correntes, colares, botões, flores, caixas, sinetes, braceletes, pulseiras, jóias de peito, gargantilhas, etc., podendo algumas destas peças descritas corresponder às que se encontram em exposição no núcleo de Joalharia do Museu Quinta das Cruzes.

 Chatelaine e relógio de bolso

Chatelaine                                      Relógio de bolso

 (?), 2ª metade do século XVIII           França, século XIX