Entre as esculturas de produção nacional pertencentes ao acervo do Museu Quinta das Cruzes destaca-se o núcleo das figuras de Presépio.
Este conjunto é composto por um total de 94 peças, algumas de notável qualidade, provenientes de oficinas nacionais (Lisboa e também regionais). Foi doado na sua totalidade por César Filipe Gomes.
Na história deste núcleo peculiar, alguma documentação alude ao facto da maior parte das peças terem pertencido ao Conde de Carvalhal, tendo sido posteriormente vendidas a César Gomes por «uma filha do Bertoldo (armador de Egrejas) – mãe do Ulrick de Abreu». Na realidade, estas pequenas figuras de barro podem ter sido originalmente adquiridas por duas pessoas, ambas da família Carvalhal.
A hipótese mais remota é atribuída a D. Guiomar de Sá e Vilhena (1705-1789). Grande proprietária e administradora de vários morgadios, a ela se encontra vinculado o Convento de São Francisco no Funchal, panteão da sua família, do qual foi grande benemérita. Crente fervorosa, não seria pois estranho que a sua ligação à comunidade franciscana (impulsionadora da espiritualidade da Encarnação e da devoção ao Presépio) a relacionasse intimamente com os mistérios da Natividade e, consequentemente, possa ter sido ela a provável encomendadora de tão ilustre conjunto de imagens.
Como potencial segundo encomendador destas peças, segue-se o referido Conde de Carvalhal. Este título remete, com probabilidade, para a figura do 2.º Conde de Carvalhal, D. António Leandro de Câmara Leme Carvalhal Esmeraldo de Atouguia Sá Machado (06.10.1831-04.02.1888), sobrinho neto de D. Guiomar. Distinta personagem no universo social da Ilha, o 2.º Conde de Carvalhal beneficiou de um avultado património e benesses, que lhe permitiram desfrutar de exuberantes mordomias. Tornou-se um profundo admirador da cultura e da arte (quer contemporânea, quer antiga), viajando por diversas capitais europeias. Próximo da elite artística lisboeta, seria, sem dúvida, um promissor proprietário destas figuras de Presépio, que surgem sem outra comparação no panorama regional.
O culto do Presépio, atribuído a S. Francisco de Assis e remontando a 1223 quando, segundo a lenda, o Santo recriou a cena da Natividade em Greccio, foi introduzido na Madeira por via da espiritualidade franciscana, presente na Ilha desde a 1.ª metade do século XV. Aludindo a representações visuais das passagens dos Evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas (que relatam o nascimento do Menino Jesus), os Presépios em barro generalizaram-se em Portugal no século XVIII, com a famosa e magnífica produção das oficinas de Lisboa, e de Machado de Castro em particular. Estas representações de profundo sentido didáctico através da imagem tornaram-se poderosas máquinas cenográficas, que incluíam o núcleo central da Sagrada Família em torno da qual se dispunham diversas personagens e múltiplos acontecimentos (alguns de carácter profano e outros de carácter bíblico) relacionados com a vida da Virgem Maria e do seu Filho, dispostos no interior de uma Casa ou Maquineta de Presépio.
Na Madeira, a existência de alguns Presépios nos conventos femininos de Santa Clara, Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora da Encarnação, bem como a referência a diversas actividades que decorriam durante o Advento - as tradicionais Missas do Parto, e as suas novenas preparatórias, que culminavam com a armação da Lapinha (nome popular para o Presépio madeirense) -, documentam bem a relação destas congregações com o mistério do Nascimento de Jesus.
No entanto, e apesar de existirem referências soltas a algumas figuras de Presépio existentes nestes conventos, nos inventários realizados na 2.ª metade do século XIX na sequência da aplicação da lei de extinção das Ordens Religiosas (1834), não surge qualquer menção a uma digna maquineta ou casa de Presépio, o que certamente aconteceria se existisse tal estrutura em qualquer uma das casas religiosas.
Esta informação é corroborada pelas «Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da Istória da Diocesi do Funchal na Ilha da Madeira», de Henrique Henriques de Noronha, datadas de 1722, em que são descritos os interiores de igrejas e conventos madeirenses de toda a Diocese, e em que não é feita nenhuma referência à existência de quaisquer estruturas associadas à representação da cena da Natividade.
Será, assim, mais lógico que a história destas figuras de Presépio, que agora integram o acervo do Museu Quinta das Cruzes, esteja antes relacionada com devoções particulares e muito provavelmente da família Carvalhal.