Após os tempos austeros de Quatrocentos surge em Portugal, durante o reinado de D. Manuel I (1495-1521), o conceito de consumo sumptuário – a procura de bens e produtos de qualidade nos melhores centros estrangeiros impulsionada pela crescente riqueza que imperava nos áureos anos manuelinos.
Liderando o mercado de importações para o reino em geral, e para a Madeira em particular, encontramos a região da Flandres, no ducado do Brabante. A acentuada preferência pela importação a partir destes mercados dos Países Baixos tem a sua origem em dois factores essenciais – as relações dinásticas e económicas com esta região.
Por outro lado, os ateliers flamengos, integrados numa estrita organização corporativa dos ofícios artísticos, encontravam-se em franco crescimento da sua produção, e podiam responder às múltiplas encomendas, alimentadas pelo alto poder económico. Não eram só as tábuas pintadas, os fantásticos trípticos, ou os magnificentes retábulos, mas também toda uma série de imagens de vulto que eram produzidas nos ateliers de Bruges, Malines e Antuérpia. Estas três cidades, entre o final do século XV e até ao fim da primeira metade do século XVI, sucedem-se enquanto principais oficinas fornecedoras de escultura devocional para a Península Ibérica, e nomeadamente para Portugal.
A produção destas peças respondia a uma procura privada, de burgueses, nobres e pessoas da Igreja, sobretudo à dos Mosteiros, correspondendo a um novo tipo de religiosidade – a meditativa, inspirada pela Devotio Moderna.
Documentada desde o século XV, a importação de peças de arte de Escultura, Pintura e Ourivesaria a partir destes centros para Portugal, teve como principais intervenientes os feitores régios e os agentes de negócios portugueses nos portos flamengos, que com contactos nos meios artísticos, serviam de intermediários na compra dos objectos a pedido de monarcas, da corte, do clero e de particulares. Entre os negociantes salientam-se os nomes de João Brandão, Tomé Lopes, Rui Fernandes Silvestre Nunes e Manuel Fernandes que, a pedido de D. Manuel I, é enviado para a Flandres “para lhe tratar da venda do seu açúcar da Ilha da Madeira”.
Tal como no restante território continental, a Madeira também irá adoptar estes novos hábitos sumptuários. O crescimento da produção sacarina em meados do século XV conduzirá ao súbito aumento do rendimento económico da Ilha, que se irá revelar determinante na importação de obras de arte flamengas cuja presença é hoje testemunhada no extenso espólio ainda existente na Região. Com a determinação, em 1472, da embarcação directa da produção de açúcar para os portos dos Países Baixos, torna-se também directo o contacto, permitindo um acesso mais fácil às produções artísticas flamengas. As vias e os modos de aquisição seriam os mais diversos, desde a compra casual no mercado livre, às grandes feiras sazonais organizadas para o efeito, até à encomenda de atelier.
Do núcleo escultórico de produção flamenga pertencente ao espólio do Museu Quinta das Cruzes destacamos duas peças: o Retábulo da Natividade e a imagem Menino Jesus Salvador do Mundo que demonstram, de forma excepcional, as relações estabelecidas entre a Ilha e os centros de produção do Brabante, testemunhando também o primeiro grande ciclo comercial da Madeira – a produção sacarina.