Era o pronuncio do turismo de cura ou terapêutico que até finais do século XIX canalizou para a Madeira gente de todo o mundo. Um desfile de testas coroadas e burguesia rica, carregando bagagens e criadagem, hospedava-se no Funchal e arredores, em quintas e palacetes, ensaiando os primeiros passos de uma indústria pioneira, futuramente encorajadora para a economia insular: o turismo tout court.
Desta época herdou-se um rol de sedutora bibliografia memorialista e de viagens produzidas por intelectuais, naturalistas, cientistas, artistas - esses do desenho à vista, das transparentes aguarelas, vigorosas e exuberantes litografias, multiplicadas em álbuns de edições dedicadas a mecenas, preferentemente ingleses. Obedecendo ao gosto da época de registar trechos da paisagem, aspectos da população e lugares visitados, escapando por vezes ao espírito romântico do esboço (sketch) surgem-nos preciosas litografias e gravuras.
Passagem quase obrigatória na rota para o sul, escala dos que se dirigiam às Índias Ocidentais, a Madeira, cedo se tornou sujeito apetecido e local de vilegiatura cosmopolita, reconhecido e publicitado pelos autores de guias de turismo, vulgarizados durante todo o século XIX, em Inglaterra e França.
Independentemente da polémica que lavrou, entre algumas personalidades da ciência e da medicina, acerca da benignidade do clima da Madeira como estância sanatorial na cura da tuberculose, certo é que a Ilha acolheu, durante o longo período do turismo terapêutico, burguesia europeia, escritores e poetas (...) unidos pela mesma desgraça: a tísica, pertinaz doença. Exílios mal queridos, palidez, tisanas e hemoptises repetiam-se no quotidiano insular dos esperançados inválidos, que acorriam à Ilha como derradeira terapia para os seus males.
Exemplar relato desta vivência, as descrições de Isabella de França, publicadas em Journal of a Visit to Madeira and Portugal (1853-1854), surgem, pela incómoda ironia e simultâneo realismo da sua escrita, como indispensável antologia da vida madeirense de meados do século XIX.
A Madeira como estação higiénica e local de actividades mercantis, tal como o Porto, Setúbal, Lisboa, ou Açores onde se estabeleceram Feitorias Britânicas, explica a natureza singular quanto diversa das relações mantidas entre Inglaterra e a Madeira e a do estabelecimento de uma numerosa colónia, ávida de um progresso individualista, que em regime de monopólios centralizou poder, dinheiro e prestígio social.

Francisco António Clode de Sousa